NEGROS EM TERRAS DO SUL: UM ESTUDO DA POESIA

AFRO-ARGENTINA DO SÉCULO XIX

 

Ana Beatriz R. Gonçalves – URI-Santo Ângelo

 

 

Ao analisar o romantismo na Argentina, Alfredo Roggiano afirma que nesse país verificou-se “la transformación más profunda y realmente re-creadora” (1999: 285)[1]  de toda a América hispana. Para sustentar sua tese, argumenta que até a criação do Virreinato del Río de la Plata no século XVIII, pouco havia para considerar como “fondo literario-cultural de esa parte de los dominios de España” (1999: 286)[2]. Ou seja, a falta de uma literatura colonial importante e a influência de países como a Inglaterra, a França e a Alemanha, cujas idéias “penetraron en Argentina muy fácilmente, arraigaron de inmediato y se transformaron sin resistencias, según las necesidades que tiempo y lugar recomendaban o exigían”[3], propiciam a formação da geração de Echeverría, Alberdi e Sarmiento, entre outros.

Para essa geração era necessário “un modo de corregir el caos, leyes e instituciones para asegurar el orden y salvar la libertad legítima del individuo en lo social”[4]. Ou seja, a recolonização era fundamental para a organizar a República Argentina. Para tal, a literatura terá um papel de destaque: intimamente ligada à política, será a expressão da sociedade. Neste sentido, o poeta ou escritor será  protagonista, testemunha e, acima de tudo, cantor da história. Deverá estar verdadeiramente identificado com “el ambiente en que vive y que gravita sobre él como una realidad de aniquilamento, si el hombre no lo domina y transforma”[5].  Dominar e transformar significa que o índio não será o bon sauvage,  como  em  outros  países,  mas  o  enemigo, o  grande  perigo  que  deve  ser vencido. Do negro, nada ou quase nada se houve falar quando o assunto em pauta é a literatura Argentina.

A grande meta desse projeto sócio-político é solicitar “la presencia de los europeus para producir ahora un mestizaje positivo” [6]. Por mestiçagem positiva entende-se “una mezcla, no de razas inferiores, indios y negros, sino de los mejores americanos com los mejores europeus”[7].  Deste modo, observa-se um projeto civilizador que, calcado na urbanização e na educação, considera ao índio e ao negro “bárbaros e incapaces de ejercer soberanía”[8]

O que dizer, então, dos negros argentinos que, segundo Matt Prichard “tiveram um papel importante na história Argentina e eram quase 1/3 da população de Buenos Aires no início do século XIX”?[9] Qual era a voz dessa população, se é que tinha voz? Observa-se, então, que em um verdadeiro desafio a essa política, inserem-se escritores que questionam, através de suas obras, os valores dessa “nova” sociedade que se constrói: são  escritores argentinos de descendência negra, ou escritores afro-argentinos.

Os escritores românticos afro-argentinos seguem , na maior parte, as convenções literárias prevalecentes na época: a paisagem local, os diferentes tipos humanos e as diferentes circunstâncias sociais e históricas[10], entre outros, são temas comuns. Entretanto, Marvin Lewis observa que “expressam sentimentos de alienação e marginalização causados pelas forças políticas e históricas que criaram e mantiveram sua posição de marginalizados, de oprimidos”[11].  Este trabalho se propõe a analisar a poesia de Horacio Mendizábal e Casildo Thompson, poetas afro-argentinos, tendo em vista os elementos que dão suporte a esse questionamento, dentro do contexto histórico/social do país na Segundametade do século XIX. Não se considerará, portanto, toda a produção literária dos referidos poetas, apenas aquelas obras que têm como objetivo principal questionar a sociedade vigente.

Horacio Mendizábal (1847-1871) publicou dois volumes de poemas: Primeros Versos, de 1865 e Horas de Meditación, de 1869. A reação da crítica à sua obra é ambígüa; ao mesmo tempo que afirmam a “falta de personalidade e habilidade poética”[12], observam que o poeta “cultiva as mais variadas formas líricas”[13] e que “seus versos primam pelo amor à pátria”[14].  Ricardo Rodríguez Molas observa que “foi a raça que moveu a sua caneta, o rancor do escravo que ganhou sua liberdade durante o nascimento da pátria. O poeta sofria a condenação e o isolamento que vários brancos impuseram aos netos e filhos daqueles escravos”[15].  Verifica-se que, assim como os demais escritores de sua época, o poeta utiliza seus versos como uma arma para a reforma social.

Os poemas de Primeros Versos seguem os motivos românticos na sua forma e substância mas, a junto a esses motivos, observa-se que temas constantes na poesia romântica adquirem aqui um outro significado. Por exemplo, a liberdade, que não se limita à situação afro-argentina, mas engloba experiências de todos os povos escravizados e colonizados:

                       

Esa por quien pelearon nuestros padres,

Esa celeste Diosa de bondad,

Esa que amaron tanto nuestras madres

Es la sublime, ¡bella Libertad!........

 

Vosotros, pueblos oprimidos lanza

 

El sacrosanto grito “¡Libertad!”...

Que do el cobarde en su terror na alcanza

Llega del noble la heroicidad. (5 - 6)

 

A história, outra constante da poesia romântica, também é revisitada por Mendizábal ao dedicar dois poemas ao herói Coronel José María Morales, um militar de descendência africana esquecido na história argentina. Em “Conmemoración a la Batalla de Cepeda” resgata, através da heroicidade do militar e da exaltação a heróis negros esquecidos,  a presença negra na formação do país:

 

Se oye la voz de mando

Del guerrero que imparte

Las órdenes, de lauros adornado

Fúlgidas armas del altivo Marte;

Y en su corcel hinnible

Corre la grande, valerosa fila

Y el hierro luce funeral temible,

Y en su redor tranquila

Tiende la vista noble y sosegada

Tiende la vista a su legión, que presto

 

Em Horas de Meditación, Mendizábal reitera sua posição de que a poesia tem uma  função  social,  assim  como  um valor  estético. Na introdução à obra o poeta faz

uma série de questionamentos e observações que, ao mesmo tempo que afirmam sua posição: “A poesia está destinada a levantar da miséria uma raça destituída, condenada à escravidão e à servidão, à degradação moral e material. . . O poeta. . . o pregador da liberdade tem que levantar a voz em apoio a uma raça exilada” (10), reforçam seus questionamentos a uma sociedade preconceituosa:

 

Como no seu próprio país dizem a um homem na sua cara: Negro! Você vai trabalhar para mim, você será meu, meu objeto - EU SOU SEU DONO!” . . . Como dizem a um homem: mulato! Você é um criminoso porque sua pele é escura![16]

 

A falta de compaixão, a incapacidade da maioria de perceber o negro, a não ser como um objeto amarga, ainda mais, a visão de Mendizábal. Assim sendo, neste poemário verificam-se poemas dedicados à luta contra uma sociedade que menospreza o negro.

Em “Plácido”, poema dedicado ao poeta cubano Gabriel de la Concepción Valdés, assassinado em 28 de junho de 1844, depois de ter sido acusado de conspiração para libertar os escravos, Mendizábal universaliza a luta de todos os negros contra a opressão e a discriminação:

 

La descarga sonó. . . mas quiso el cielo

que todo fuese extraordinario y grande

en el poeta del semblante negro.

Las balla le respetan - Todos callan

ante el crudo espetáculo siniestro,

y entre el humo y la sangre de las víctimas

Levanta la cabeza el triste reo.

Adiós, adiós, clamó, parto del mundo. (75)

 

Um poema dedicado a Abraham Lincoln, libertador dos escravos nos Estados Unidos, reitera a proposta do poeta de universalização da luta dos negros. Lincoln é apresentado como um modelo a ser seguido, como um verdadeiro herói:

 

¿Quién el grande demócrata valiente

Que del esclavo quebrantó los grillos,

Y al trozar para siempre sus anillos

Dobló angustiado la inspirada frente?

 

Lincoln! Lincoln! él fué quien poderoso

Del polvo alzara una anijada raza,

Sintiendo en premio traspasado el pecho.

 

Em “Mi Canto” pode-se observar a profunda relação com a sociedade da qual faz parte, seguindo, assim, a característica romântica de descrever as diferentes maneiras de viver em diferentes circunstâncias sociais. Neste caso, isolamento e discriminação são constantes nesse poema:

 

Aislado estoy en meido de los hombres.

Aislado en una viva sociedad,

De la que veo los brillantes nombres,

Sus títulos, grandezas y renombres,

Y también su miseria y su maldad

 

En medio de mi pueblo estoy aislado

Porque donde mi cuna se meció,

Con ímpetu arrojada de su lado

Una raza de parias ha quedado

Y a aquesa raza pertenezco yo.

 

Y ni patria tenemos, que si existe

De su seno nos supo conscribir;

Las cargas sean para el hombre triste:

Y si un solo derecho nos asiste

Ha de ser el derecho de morir. (60)

 

Ao final do poema, desconstruindo esteriótipos criados e aceitos como verdadeiros, verifica-se uma exaltação da imagem do negro:

 

Que si soy negro una corona ciño,

Que si en mi frente no se ve el armiño

Pura mi frente está y mi corazón.

 

Pura porque mi raza no insultará

A quien obra de Dios forma su igual;

Porque mi raza no escupió en la cara

De una raza hermana que se creara

Y no es raza Caín ni criminal. (61-63)

 

Casildo Thompson segue a mesma trajetória de Mendizábal no que se refere à utilização de sua poesia como arma contra a discriminação e na desconstrução de esteriótipos. Infelizmente, pouco sobreviveu de sua obra. No seu longo poema “Song to Africa”, publicado parcialmente em 1877, no jornal “La Broma” e na versão completa em uma obra de Jorge Miguel Ford intitulada Beneméritos de mi estirpe, publicada em 1899, observa-se como tema central o desejo de liberação dos afro-argentinos através de um escape metafórico. Para tal, desafiando o projeto de recolonização da República Argentina, utiliza uma perspectiva negra para descrever todo o processo de colonização. A África e os negros serão, desta forma, o viés que perpassa toda a obra.

O poema começa com uma visão de uma nação ideal. Entretanto, essa nação não é a nova República Argentina, e sim o continente africano, uma África imaginária, paradisíaca que foi destruída pelo colonizador:

 

Bajo un cielo fulgente

De límpido color, con blancas nubes

Como tejidas alas de querubes,

Cielo con millones de luceros

Que refulgen en noche de embeleso

Con amante porfía

Cariciando la tierra con su beso.

Bajo un sol de flamigeros colores

Que ilumina el espacio en rayos de oro:

Con un aire de aromas y un tesoro

En rubíes y perlas de sus flores:

..................................................

¿Sabéis cómo se llama

Esa tierra divina y bendecida,

Esa joya que al mundo Dios legara,

Esa púdica virgen ofendida

Que humillada descuella?

Se llama AFRICA, oíd, África bella!

           

O poeta utiliza a imagem de uma terra virgem que foi verdadeiramente “estuprada” pela figura do colonizador, ao mesmo tempo que chora o destino de toda uma raça:

 

Hay una tierra virgen que fue cuna

Por duelo o por fortuna

De una raza que es mártir por su historia,

 

Exalta a nobreza dessa raça, comparando-a um leão, rei da selva:

 

Raza digna de gloria

Porque es noble y altiva

Como el león que entre la selva mora.

Y que en acerba hora

Arrastróla al abismo de la infamia

 

Ao mesmo tempo em que exalta a nobreza do negro, reafirma a idéia de marginalização, de um desterrado que não pertence à sociedade na qual está inserido:

           

Es la cuna del negro: ésa el la patria

Del eterno proscrito que la llora

Y lejos de sus lares

Eleva en tierra extraña voz sonora

Entonando el cantar de los pesares.

 

O processo de captura de negros para a escravidão também aparece retratado no poema:

 

También le vio partir con triste duelo

Con panta ensangrentada

Arrastrando el dogal, mirando el cielo,

Testigo de su afrenta y del vil sello

Que un verdugo feroz le puso al cuello.

 

Ser capturado como um animal leva a um questionamento: quem é o verdadeiro selvagem?

 

Desde la altiva cumbre al bajo prado

Una fiera sedienta

Que se llamó hombre blanco,

El seno desgarró al Africa virgen

Con avidez brutal, saña sangrienta.

 

A escravidão na Argentina e a atitude do senhor frente ao escravos também  são descritas:

 

Ah! déspota y cruel: él es el amo

Que concede la vida y la muerte,

Que no conoce ley, débil ni fuerte,

.................................................

 

Y el blanco inoxerable,

Fustigando del negro el rostro bravo,

Le dice con desdén intolerable:

“Aparta negro vil! apartra esclavo!

 

Entretanto e apesar de sua dor, da discriminação e da marginalização, o poeta acredita no perdão, na paz e na harmonia demonstrando, desta forma, a superioridade do negro e reiterando seu caráter nobre:

 

Mas, no cesa la ira.

Su misión el poeta no realiza

Del odio en la región, y de su lira

Solo es dulce el acorde melodioso

Si de la paz la oliva simboliza

Y es el amor el numen

Do va a beber la inspiración divina.

Que cual voz de sirena peregrina

Traiga a los seres en el mundo extraños

A la región de luz do el odo cesa

Y de fraternidad la aurora empieza.

 

Seguindo a tendência romântica argentina, expresa seu ideal de nação, um espaço sócio-político-econômico onde igualdade e justiça prevaleçam. Trata-se de um veículo para promover a união entre todos os argentinos:

 

Ya en nombre del amor se dan las manos

Esclavos y tiranos

Pues la Igualdad de la Justicia hermana

Los quiere en un abrazo confundidos.

 

Pelo exposto, conclui-se que a atitude de Mendizábal e Thompson , no século XIX, aproxima-se ao que hoje conhecemos por afro-centrismo ou pelo menos negritude, ou seja, a poesia serve de veículo que, ao mesmo tempo que descontrói preconceitos e estereótipos, propõe a afirmação de uma identidade negra, que se quer inserida no contexto social do qual faz parte. Pode-se afirmar que ambos os autores antecipam-se a toda uma geração que surgirá no século XX e que dará origem a movimentos de grande importância no mundo ocidental, como o movimento da “Négritude” na França, o “Negrismo” no Caribe e os movimentos afro-centristas espalhadados pela Europa, África e Américas.  No que se refere à Argentina especificamente, a população negra se tornou objeto de curiosidade e preconceito na chamada “cidade mais branca” da América Latina.  Muitos argentinos acreditam que a população negra desapareceu em conseqüência das guerras, do racismo e da mestiçagem. Outra crença comum é que “junto com os negros desapareceu também o racismo na Argentina”.[17] 

 

 

Referências Bibliográficas:

 

ANDERSON IMBERT, Enrique. Historia de la literatura hispanoamericana. Vol 2. México: Fondo de Cultura Económica: 1992.

FORD, Jorge Miguel. Beneméritos de mi estirpe. La Plata: Tipografía de la Escuela de Arte y Oficios: 1899.

LEWIS, Marvin. Afro-argentine discourse. Another dimension of the black diaspora. Columbia: University of Missouri Press: 1996.

MENDIZÁBAL, Horacio. Horas de meditación. Buenos Aires: Imprenta de Buenos Aires: 1869.

--------. Primeros versos. Buenos Aires: Imprenta de Buenos Aires, 1865.

MIX, Miguel Rojas. “La cultura hispanoamericana del diglo XIX”.  In: MADRIGAL, Luis Iñigo. Historia de la literatura hispanoamericana. vol 2. Del Neoclacisismo al Modernismo. Madrid: Cátedra, 1999. pp. 55-74.

PRICHARD, Matt. “Buenos Aires looks at its 4,000 blacks with mixture of curiosity and prejudice”. Atlanta Journal and Constitution. September 4, 1988.

RODRÍGUEZ MOLAS, Ricardo. “El negro en el Río de la Plata”. Historia Integral Argentina 1 (1974): 133-170.

ROGGIANO, Alfredo. “La poesía decimonónica”. In: MADRIGAL, Luis Iñigo. Historia de la literatura hispanoamericana. vol 2. Del Neoclacisimo al Modernismo. Madrid: Cátedra, 1999. pp. 277-288.



[1]Tradução nossa.

[2]Idem.

[3] ROGGIANO, Alfredo. “La poesía decimonónica”. In: MADRIGAL, Luis Iñigo. Historia de la literatura hispanoamericana. vol 2. Del Neoclacisimo al Modernismo. Madrid: Cátedra, 1999. p. 286. Tradução nossa.

[4] Idem, p.287.

[5] Idem, ibidem.

[6] MIX, Miguel Rojas. “La cultura hispanoamericana del diglo XIX”.  In: MADRIGAL, Luis Iñigo. Historia de la literatura hispanoamericana. vol 2. Del Neoclacisismo al Modernismo. Madrid: Cátedra, 1999. p . 56. Tradução nossa.

[7] Idem, ibidem.

[8] Idem, p.64.

[9] Idem.

[10] ANDERSON IMBERT, Enrique. Historia de la literatura hispanoamericana. Vol 2. México: Fondo de Cultura Económica: 1992. p. 240.

[11] Idem, p.25.

[12]LEWIS, Marvin. Afro-argentine discourse. Another dimension of the black diaspora. Columbia: University of Missouri Press: 1996. p. 34.

[13] Idem, ibidem.

[14] Idem, ibidem.

[15] RODRÍGUEZ MOLAS, Ricardo. “El negro en el Río de la Plata”. Historia Integral Argentina 1 (1974): 133-170.

[16] Idem, p.10.

[17]PRICHARD, Matt. “Buenos Aires looks at its 4,000 blacks with mixture of curiosity and prejudice”. Atlanta Journal and Constitution. September 4, 1988. p. 25.